Era dia 20 de fevereiro, logo após o carnaval de 2007, havia navegado de Paraty a Bracuhi no meu veleiro Uauyara, a intenção era subir o barco para a manutenção anual, venenosa, reparos na fibra e afins, desta vez eu mesmo iria raspar e pintar o fundo, pois em épocas de vacas magras a gente se vira e assim foi a semana toda, o barco no seco em cima da carreta dentro do estaleiro de Bracuhi, no estaleiro fariam o serviço na fibra e eu o resto que incluía raspar e pintar a venenosa, durante uma semana dormi dentro do barco, um Ranger 22, acordando as 7 com o calor insuportável da cabine e fazendo turnos durante a noite entre uma aplicação de SBP e outra para liquidar os intermináveis pernilongos que não me deixavam dormir a partir das 2 da manhã। Entrei no ritmo e o trabalho progrediu até chegar a hora de voltar para a água e retornar a Paraty।
Neste despretensioso cenário no entanto aconteceu o inesperado, encontrei uma amiga que mora no Bracuhi e sabendo que eu estava trabalhando no barco uma manhã ela me visitou pra ver o Uauyara, em pouco tempo de papo me perguntou se eu não encarava de ir trabalhar como marinheiro de um Veleiro na Cidade portuária de Bari, na região da Puglia, Itália. Ela já era tripulante oficial e a "Coca", termo italiano usado para definir a "Mestre Cuca" da tripulação deste barco chamado Fetch 4, um Veleiro 24IMS One Design, concebido pelo proprietário, um industrial Italiano, projetado nos EUA e construído na Itália, 80 pés de casco, mastro com 36 metros tudo em fibra de carbono, uma quilha basculante que varia o calado de 2.90m a 4.60m com bulbo, 30 toneladas de pura tecnologia que navega na velocidade do vento ou, em determinadas situações acima dele, área vélica perto dos 400m2 além do balão que tem 590m2. Eram números impressionantes, nada que eu já tivesse chego perto na minha vida ate então, assim cai em sonhos entre o cheiro do primer e da venenosa de dia e o calor e os pernilongos canibais na pequena cabine do meu pequeno Uauyara durante as noites!!!!
A proposta era para ser o marinheiro do barco durante um semestre que iniciava a partir de Abril com um calendário de regatas na região do Mar Adriático e um cruzeiro de férias de verão previsto entre os meses de Julho/Agosto na Grécia, a intenção naquele ano era navegar até Athenas. Já havia um Capitão fixo, o Luis, ela era a Mestre Cuca e eu seria o marinheiro, salário fixo, passagem paga, despesas por conta do barco e retorno ao Brasil em outubro. Como filho de mãe italiana e pai croata o Mar Adriático sempre estivera nos meus planos, a língua e a cidadania italiana já faziam parte da minha vida e as coisas se facilitaram através da vela, escrevi um currículo contando as minhas experiências náuticas e como sempre estive envolvido com barcos e esportes náuticos fechamos a minha ida em 15 de abril, sendo assim iniciei a correria dos preparativos pessoais em São Paulo para viabilizar a viagem que envolvia uma série de coisas a que normalmente estamos presos como a profissão, as contas, o apto, a namorada e o próprio Uauyara que ficaria 6 meses fechado apos a reforma no Bracuhi.
Um mês depois do encontro com a Cristina estava embarcando em Guarulhos com a cabeça a mil !!!
Deu tudo certo e depois de 36 horas entre avião, escalas, trens e ônibus estava em Bari na Itália, as cinco da manhã dentro do CUS (Centro Universitário Esportivo), local aonde viveria até outubro, foi fácil identificar o barco, o único com 4 cruzetas no mastro. Dormi sentado junto com as malas no jardim do clube admirando minha nova casa e escritório e sonhando quantas coisas novas teria pela frente até que as 8 horas da manha fui acordado pelo Capitão Luis, que como todos os dias ia tomar seu café no bar do clube e isso já era uma das tantas rotinas diárias que passaria a viver nesta nova vida.
No tempo todo que estive embarcado como marinheiro do Fetch4 eu passaria por um processo de adaptação e convivência que variou da euforia ao arrependimento, do arrependimento a dúvida e da dúvida a aceitação, depois de reorganizar as expectativas foi só alegria, viver a bordo com quem não se conhece é um processo de adaptação difícil, morar aonde se trabalha também, para acordar no escritório e trabalhar em casa e vice versa é preciso muita disciplina pra entender quem é vice e quem é versa !!! Até que a Mestre "Coca" chegasse teria uma suíte própria com ar condicionado, passei o primeiro mês dando bom dia sem resposta até que me acostumei ao humor do capitão, nossa rotina era acordar as 8 horas, tomar café da manhã no barco cada um no seu tempo, e por volta das 9 começar o expediente muitas vezes sem falar muito, basicamente no "período comercial" trabalhávamos na manutenção e preparação do barco para diversos eventos, era época da Américas Cup e isso deu um tom a mais no período, assistimos ao vivo muitas das regatas pela TV entre um trabalho e outro torcendo sempre pelo barco italiano do Torben é claro. De Abril a Julho participamos de regatas, Julho e Agosto fizemos um cruzeiro de férias pela Grécia que durou 45 dias, além de diversos finais de semana de treinos e passeios pelos arredores de Bari, para cumprir esta programação tivemos que trabalhar duro na preparação do barco, quando envolvia regata tínhamos que "desmontar o barco", aliviar peso retirando mesas, sofás, portas, substituir driças e escotas além de trocar velas de dracon por kevlar e carbono, preparar a vela Cod 0, um tipo de gennaker todo em fibra de carbono que no saco pesa uns 200 kg.
Para suporte a todo este trabalho tínhamos um container no estaleiro, um furgão e dois botes para apoio, ser motorista disso tudo também era uma das minhas funções, participamos de 3 regatas neste período, Bari-Trani-Manfredonia, Bari-HercegGnovi, e Brindisi-Corfu, em todas elas a tripulação variava pouco, mas éramos sempre entre 14/15 homens de 70 a 20 anos.
As participações de regata eram sempre muito divertidas, trabalhosas e cansativas, pois além da regata em si, apenas eu e o Luis é que deixávamos a bagunça toda em ordem enquanto o resto da tripulação ia para o Hotel deixando literalmente tudo uma zona, mas afinal nossa função era essa também. Todas estas regatas foram de percursos longos, com até 120 milhas a serem percorridas numa perna única, virando a noite toda até chegar do outro lado do Mar Adriático, a primeira vez em HercegGnovi na Macedônia e a segunda vez em Corfu na Grécia, fiquei impressionado em todos os casos a organização das regatas, as festas, os barcos, na Brindisi Corfu naquele ano foram mais de 100 barcos sendo 7 deles Maxis, barcos acima de 70 pés como o nosso, um deles ela o Amer Sports Too barco que participou da VolvoRace em 2001 e hoje navega por aquelas águas em charters para regatas.
Acabado o período de regatas preparamos o barco para o verão, a Mestre "Coca" chegou do Brasil, fui despejado para a cabine do capitão e logo estávamos de partida para o cruzeiro pela Grécia com a Familia toda, dai foram quase dois meses pelo Mar Iônico passando por lugares lindos como Erikousa, Corfu, Meganisi, Gaios, o Canal de Lefkas, Scorpius, Ithaka, Mourtos, Fiskardo, Sivota e tantos outros, neste período na Grécia troquei a apertada cabine do capitão pelo cockpit, bem mais fresco e estrelado, tivemos também a bordo alguns eventos de destaque como minha queda na água ao remover a passarela de popa com o barco a todo pano e motor; o rato "Julius" que navegou e divertiu a tripulação adolescente de Gaios até Lefkas durante 4 dias comendo todas as garrafas de coca cola que guardávamos no porão, além das balas, batatas e uma melancia; o salvamento de um veleiro 38 pés que perdeu o mastro perto de nós em um dia de ventos acima dos 30 nós perto de Sivota, e a triste noticia dos incêndios que inviabilizaram nossa ida para Athenas uma vez que o Canal do Peloponeso estavam bloqueados pela fumaça.
Athenas em chamas, nossos planos viraram fumaça e com as férias no fim retornamos a Bari para retomar a rotina dos trabalhos e minha preparação para voltar ao Brasil dois meses depois, tudo que vivi neste período não cabe em uma folha de papel, mas as pessoas que conheci e convivi, as amizades que fiz, os lugares e a vida dentro de um barco deste porte foi uma experiência fantástica que guardo com muito carinho na minha alma navegante.
Neste despretensioso cenário no entanto aconteceu o inesperado, encontrei uma amiga que mora no Bracuhi e sabendo que eu estava trabalhando no barco uma manhã ela me visitou pra ver o Uauyara, em pouco tempo de papo me perguntou se eu não encarava de ir trabalhar como marinheiro de um Veleiro na Cidade portuária de Bari, na região da Puglia, Itália. Ela já era tripulante oficial e a "Coca", termo italiano usado para definir a "Mestre Cuca" da tripulação deste barco chamado Fetch 4, um Veleiro 24IMS One Design, concebido pelo proprietário, um industrial Italiano, projetado nos EUA e construído na Itália, 80 pés de casco, mastro com 36 metros tudo em fibra de carbono, uma quilha basculante que varia o calado de 2.90m a 4.60m com bulbo, 30 toneladas de pura tecnologia que navega na velocidade do vento ou, em determinadas situações acima dele, área vélica perto dos 400m2 além do balão que tem 590m2. Eram números impressionantes, nada que eu já tivesse chego perto na minha vida ate então, assim cai em sonhos entre o cheiro do primer e da venenosa de dia e o calor e os pernilongos canibais na pequena cabine do meu pequeno Uauyara durante as noites!!!!
A proposta era para ser o marinheiro do barco durante um semestre que iniciava a partir de Abril com um calendário de regatas na região do Mar Adriático e um cruzeiro de férias de verão previsto entre os meses de Julho/Agosto na Grécia, a intenção naquele ano era navegar até Athenas. Já havia um Capitão fixo, o Luis, ela era a Mestre Cuca e eu seria o marinheiro, salário fixo, passagem paga, despesas por conta do barco e retorno ao Brasil em outubro. Como filho de mãe italiana e pai croata o Mar Adriático sempre estivera nos meus planos, a língua e a cidadania italiana já faziam parte da minha vida e as coisas se facilitaram através da vela, escrevi um currículo contando as minhas experiências náuticas e como sempre estive envolvido com barcos e esportes náuticos fechamos a minha ida em 15 de abril, sendo assim iniciei a correria dos preparativos pessoais em São Paulo para viabilizar a viagem que envolvia uma série de coisas a que normalmente estamos presos como a profissão, as contas, o apto, a namorada e o próprio Uauyara que ficaria 6 meses fechado apos a reforma no Bracuhi.
Um mês depois do encontro com a Cristina estava embarcando em Guarulhos com a cabeça a mil !!!
Deu tudo certo e depois de 36 horas entre avião, escalas, trens e ônibus estava em Bari na Itália, as cinco da manhã dentro do CUS (Centro Universitário Esportivo), local aonde viveria até outubro, foi fácil identificar o barco, o único com 4 cruzetas no mastro. Dormi sentado junto com as malas no jardim do clube admirando minha nova casa e escritório e sonhando quantas coisas novas teria pela frente até que as 8 horas da manha fui acordado pelo Capitão Luis, que como todos os dias ia tomar seu café no bar do clube e isso já era uma das tantas rotinas diárias que passaria a viver nesta nova vida.
No tempo todo que estive embarcado como marinheiro do Fetch4 eu passaria por um processo de adaptação e convivência que variou da euforia ao arrependimento, do arrependimento a dúvida e da dúvida a aceitação, depois de reorganizar as expectativas foi só alegria, viver a bordo com quem não se conhece é um processo de adaptação difícil, morar aonde se trabalha também, para acordar no escritório e trabalhar em casa e vice versa é preciso muita disciplina pra entender quem é vice e quem é versa !!! Até que a Mestre "Coca" chegasse teria uma suíte própria com ar condicionado, passei o primeiro mês dando bom dia sem resposta até que me acostumei ao humor do capitão, nossa rotina era acordar as 8 horas, tomar café da manhã no barco cada um no seu tempo, e por volta das 9 começar o expediente muitas vezes sem falar muito, basicamente no "período comercial" trabalhávamos na manutenção e preparação do barco para diversos eventos, era época da Américas Cup e isso deu um tom a mais no período, assistimos ao vivo muitas das regatas pela TV entre um trabalho e outro torcendo sempre pelo barco italiano do Torben é claro. De Abril a Julho participamos de regatas, Julho e Agosto fizemos um cruzeiro de férias pela Grécia que durou 45 dias, além de diversos finais de semana de treinos e passeios pelos arredores de Bari, para cumprir esta programação tivemos que trabalhar duro na preparação do barco, quando envolvia regata tínhamos que "desmontar o barco", aliviar peso retirando mesas, sofás, portas, substituir driças e escotas além de trocar velas de dracon por kevlar e carbono, preparar a vela Cod 0, um tipo de gennaker todo em fibra de carbono que no saco pesa uns 200 kg.
Para suporte a todo este trabalho tínhamos um container no estaleiro, um furgão e dois botes para apoio, ser motorista disso tudo também era uma das minhas funções, participamos de 3 regatas neste período, Bari-Trani-Manfredonia, Bari-HercegGnovi, e Brindisi-Corfu, em todas elas a tripulação variava pouco, mas éramos sempre entre 14/15 homens de 70 a 20 anos.
As participações de regata eram sempre muito divertidas, trabalhosas e cansativas, pois além da regata em si, apenas eu e o Luis é que deixávamos a bagunça toda em ordem enquanto o resto da tripulação ia para o Hotel deixando literalmente tudo uma zona, mas afinal nossa função era essa também. Todas estas regatas foram de percursos longos, com até 120 milhas a serem percorridas numa perna única, virando a noite toda até chegar do outro lado do Mar Adriático, a primeira vez em HercegGnovi na Macedônia e a segunda vez em Corfu na Grécia, fiquei impressionado em todos os casos a organização das regatas, as festas, os barcos, na Brindisi Corfu naquele ano foram mais de 100 barcos sendo 7 deles Maxis, barcos acima de 70 pés como o nosso, um deles ela o Amer Sports Too barco que participou da VolvoRace em 2001 e hoje navega por aquelas águas em charters para regatas.
Acabado o período de regatas preparamos o barco para o verão, a Mestre "Coca" chegou do Brasil, fui despejado para a cabine do capitão e logo estávamos de partida para o cruzeiro pela Grécia com a Familia toda, dai foram quase dois meses pelo Mar Iônico passando por lugares lindos como Erikousa, Corfu, Meganisi, Gaios, o Canal de Lefkas, Scorpius, Ithaka, Mourtos, Fiskardo, Sivota e tantos outros, neste período na Grécia troquei a apertada cabine do capitão pelo cockpit, bem mais fresco e estrelado, tivemos também a bordo alguns eventos de destaque como minha queda na água ao remover a passarela de popa com o barco a todo pano e motor; o rato "Julius" que navegou e divertiu a tripulação adolescente de Gaios até Lefkas durante 4 dias comendo todas as garrafas de coca cola que guardávamos no porão, além das balas, batatas e uma melancia; o salvamento de um veleiro 38 pés que perdeu o mastro perto de nós em um dia de ventos acima dos 30 nós perto de Sivota, e a triste noticia dos incêndios que inviabilizaram nossa ida para Athenas uma vez que o Canal do Peloponeso estavam bloqueados pela fumaça.
Athenas em chamas, nossos planos viraram fumaça e com as férias no fim retornamos a Bari para retomar a rotina dos trabalhos e minha preparação para voltar ao Brasil dois meses depois, tudo que vivi neste período não cabe em uma folha de papel, mas as pessoas que conheci e convivi, as amizades que fiz, os lugares e a vida dentro de um barco deste porte foi uma experiência fantástica que guardo com muito carinho na minha alma navegante.


1 Comments:
Não li o post ainda, porque me acostumei ao Twitter e virei 2 lazy 2 blog 'n 2 read. Mas vou ler, prometo.
Só queria deixar aqui uma declaração de amor ao Bruno.
Fiquei, sei lá, 5 anos sem falar com o cara. Encontrei-o no MSN e conversamos teclando como se nada tivesse acontecido.
E vamos nos ver em breve, antes da próxima viagem transatlântica, de preferência.
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